A escola que adoece: o impacto do racismo escolar na saúde mental da população negra
- Luciana Tudeia
- 24 de jul.
- 3 min de leitura
Como o ambiente educacional contribui para o adoecimento de estudantes e professores negros — e o que fazer para transformar essa realidade

A escola é muitas vezes chamada de “segundo lar”. Um lugar de aprendizado, socialização e formação de identidade. Mas para crianças, adolescentes e educadores negros, a escola pode ser o primeiro espaço onde o racismo se materializa de forma direta, frequente e persistente.
Este artigo analisa como o racismo escolar é um fator central no adoecimento emocional da população negra e defende a urgência de políticas educacionais racializadas, que promovam não só o conhecimento, mas também a saúde mental e o pertencimento de estudantes e profissionais negros.
A negação da identidade negra na escola
Nilma Lino Gomes, em sua obra Educação para as relações étnico-raciais, destaca que a escola brasileira foi construída com base em uma perspectiva eurocêntrica, que invisibiliza a história, os saberes e as culturas africanas e afro-brasileiras. Essa omissão não é neutra — ela nega a existência negra como fonte de conhecimento e valor.
Estudantes negros crescem ouvindo:
“Seu cabelo é ruim.”
“Você não parece tão negro.”
“Você é inteligente demais pra ser da periferia.”
Essas frases não são apenas preconceituosas — são instrumentos de deslegitimação, que atuam diretamente na autoestima e na constituição subjetiva da criança e do jovem negro.
Microviolências cotidianas e seus efeitos
A psicanalista Neusa Santos Souza nos alerta que o processo de tornar-se negro envolve lidar com o olhar do outro que inferioriza, nega e violenta. Esse olhar, presente também na escola, aparece de formas sutis e contínuas:
O aluno negro que sempre é confundido com outro da mesma cor;
A menina negra que nunca é escolhida para ser “princesa” na apresentação;
O adolescente negro que é reprimido com mais rigor que os colegas brancos;
O professor negro que precisa provar sua competência o tempo todo.
Essas microagressões têm efeito acumulativo. E o resultado é adoecimento: tristeza, ansiedade, comportamentos retraídos, autossabotagem, evasão escolar.
Adoecimento de professores negros: a dor invisibilizada
Não são apenas os estudantes que adoecem. Muitos profissionais negros da educação também sofrem com o racismo institucional:
São alocados em funções subalternizadas;
Têm sua autoridade constantemente questionada;
Sentem-se sozinhos ao tentar conduzir debates sobre raça;
Precisam lidar com expectativas excludentes e vigilância constante.
bell hooks, em Ensinando a transgredir, fala da dor de ensinar em um sistema que nega sua humanidade. O docente negro, em uma escola que não valoriza sua trajetória e voz, muitas vezes carrega o fardo de resistir sozinho, adoecendo silenciosamente.
Quando a escola reproduz desigualdades
A escola deveria ser espaço de emancipação. Mas, quando omite o debate racial ou o reduz a datas comemorativas, ela reproduz a lógica da democracia racial falida, sustentando privilégios e silenciamentos.
Como pontua Kabengele Munanga, o mito da democracia racial serve para mascarar as desigualdades. E quando a escola se recusa a nomear o racismo, ela reforça esse mito — e contribui diretamente para o sofrimento de quem vive a negação todos os dias.
Caminhos para uma educação antirracista e saudável
Letramento racial para toda a equipe pedagógica — para que professores saibam identificar e enfrentar o racismo no cotidiano escolar.
Currículo antirracista — que valorize a história e as contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros.
Cuidado com a saúde mental de estudantes e professores negros — com espaços de escuta e acolhimento racialmente qualificado.
Incentivo à representatividade — nos materiais didáticos, na equipe docente e nas lideranças escolares.
Criação de protocolos para denúncias de racismo — com escuta ativa, responsabilização e reparação.
A escola que não reconhece o racismo adoece. A escola que silencia sobre desigualdades contribui para que crianças negras cresçam acreditando que sua dor é normal.
Mas a escola também pode ser território de cura, se escolher o caminho da escuta, da formação e da transformação.
Como diz Fanon, “a desalienação do negro é uma missão coletiva”. Que a escola abrace essa missão — com coragem, com política e com amor.
Referências bibliográficas
Gomes, Nilma Lino. Educação para as relações étnico-raciais. Autêntica, 2012.
Souza, Neusa Santos. Tornar-se negro. Graal, 1983.
hooks, bell. Ensinando a transgredir. WMF Martins Fontes, 2013.
Munanga, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Vozes, 1999.
Carneiro, Sueli. Escritos de uma vida. Companhia das Letras, 2023.
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