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A escola que adoece: o impacto do racismo escolar na saúde mental da população negra

Como o ambiente educacional contribui para o adoecimento de estudantes e professores negros — e o que fazer para transformar essa realidade


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A escola é muitas vezes chamada de “segundo lar”. Um lugar de aprendizado, socialização e formação de identidade. Mas para crianças, adolescentes e educadores negros, a escola pode ser o primeiro espaço onde o racismo se materializa de forma direta, frequente e persistente.

Este artigo analisa como o racismo escolar é um fator central no adoecimento emocional da população negra e defende a urgência de políticas educacionais racializadas, que promovam não só o conhecimento, mas também a saúde mental e o pertencimento de estudantes e profissionais negros.



A negação da identidade negra na escola

Nilma Lino Gomes, em sua obra Educação para as relações étnico-raciais, destaca que a escola brasileira foi construída com base em uma perspectiva eurocêntrica, que invisibiliza a história, os saberes e as culturas africanas e afro-brasileiras. Essa omissão não é neutra — ela nega a existência negra como fonte de conhecimento e valor.

Estudantes negros crescem ouvindo:

  • “Seu cabelo é ruim.”

  • “Você não parece tão negro.”

  • “Você é inteligente demais pra ser da periferia.”

Essas frases não são apenas preconceituosas — são instrumentos de deslegitimação, que atuam diretamente na autoestima e na constituição subjetiva da criança e do jovem negro.


Microviolências cotidianas e seus efeitos

A psicanalista Neusa Santos Souza nos alerta que o processo de tornar-se negro envolve lidar com o olhar do outro que inferioriza, nega e violenta. Esse olhar, presente também na escola, aparece de formas sutis e contínuas:

  • O aluno negro que sempre é confundido com outro da mesma cor;

  • A menina negra que nunca é escolhida para ser “princesa” na apresentação;

  • O adolescente negro que é reprimido com mais rigor que os colegas brancos;

  • O professor negro que precisa provar sua competência o tempo todo.

Essas microagressões têm efeito acumulativo. E o resultado é adoecimento: tristeza, ansiedade, comportamentos retraídos, autossabotagem, evasão escolar.


Adoecimento de professores negros: a dor invisibilizada

Não são apenas os estudantes que adoecem. Muitos profissionais negros da educação também sofrem com o racismo institucional:

  • São alocados em funções subalternizadas;

  • Têm sua autoridade constantemente questionada;

  • Sentem-se sozinhos ao tentar conduzir debates sobre raça;

  • Precisam lidar com expectativas excludentes e vigilância constante.

bell hooks, em Ensinando a transgredir, fala da dor de ensinar em um sistema que nega sua humanidade. O docente negro, em uma escola que não valoriza sua trajetória e voz, muitas vezes carrega o fardo de resistir sozinho, adoecendo silenciosamente.


Quando a escola reproduz desigualdades

A escola deveria ser espaço de emancipação. Mas, quando omite o debate racial ou o reduz a datas comemorativas, ela reproduz a lógica da democracia racial falida, sustentando privilégios e silenciamentos.

Como pontua Kabengele Munanga, o mito da democracia racial serve para mascarar as desigualdades. E quando a escola se recusa a nomear o racismo, ela reforça esse mito — e contribui diretamente para o sofrimento de quem vive a negação todos os dias.


Caminhos para uma educação antirracista e saudável

  1. Letramento racial para toda a equipe pedagógica — para que professores saibam identificar e enfrentar o racismo no cotidiano escolar.

  2. Currículo antirracista — que valorize a história e as contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros.

  3. Cuidado com a saúde mental de estudantes e professores negros — com espaços de escuta e acolhimento racialmente qualificado.

  4. Incentivo à representatividade — nos materiais didáticos, na equipe docente e nas lideranças escolares.

  5. Criação de protocolos para denúncias de racismo — com escuta ativa, responsabilização e reparação.


A escola que não reconhece o racismo adoece. A escola que silencia sobre desigualdades contribui para que crianças negras cresçam acreditando que sua dor é normal.

Mas a escola também pode ser território de cura, se escolher o caminho da escuta, da formação e da transformação.

Como diz Fanon, “a desalienação do negro é uma missão coletiva”. Que a escola abrace essa missão — com coragem, com política e com amor.


Referências bibliográficas

  • Gomes, Nilma Lino. Educação para as relações étnico-raciais. Autêntica, 2012.

  • Souza, Neusa Santos. Tornar-se negro. Graal, 1983.

  • hooks, bell. Ensinando a transgredir. WMF Martins Fontes, 2013.

  • Munanga, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Vozes, 1999.

  • Carneiro, Sueli. Escritos de uma vida. Companhia das Letras, 2023.

 
 
 

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